Não conheço a fundo
outros povos para dizer que somente o brasileiro seja um povo que
costuma alimentar e perpetuar os vícios que cria. Vira e mexe falo
disso e associo ao futebol por ser uma das representações maiores
da nossa gente.
Durante três décadas,
os times brasileiros venceram apenas cinco taças da Libertadores das
Américas. Duas nos anos sessenta e, respectivamente, uma e duas nas
décadas seguintes. O nosso argumento era que o brasileiro não
valorizava o campeonato. O inverso do mesmo argumento é utilizado
para criticar, mesmo que sutilmente, os europeus por não valorizarem
abertamente o Mundial de Clubes.
Olha que existe uma
grande diferença. Nesse formato de torneio, o time mais expressivo
que os europeus enfrentam é o campeão sul-americano, geralmente na
final. Ou seja, deveríamos reconhecer a lógica de uma oitava de
final entre os grandes europeus ser muito mais relevante do que uma
final com um time asiático, africano ou até das Américas.
Por aqui, os narradores
e comentaristas esportivos indistintamente passam o jogo inteiro
criticando e até instigando quem os ouça a se insurgir contra os
árbitros em razão dos erros cometidos contra equipes brasileiras.
Quando o mesmo erro favorece às equipes daqui, eles são bem amenos
nas críticas e o máximo que dizem é que o time brasileiro não tem
nada a ver com a falha da arbitragem. Tá bom. Esse conceito só vale
para o Brasil!
Outra mania é os
comentaristas mencionarem como os treinadores deveriam jogar. Aí são
sempre as alternativas para vencer de um lado e do outro, como numa
partida só um vence, nunca dizem qual é efetivamente a sugestão
para valer.
Certa vez contestei as
"sobras" de Falcão. Ele insistia em dizer que sobrariam
três daqui, dois para acolá. Até que eu persuadir para que ele
explicasse a razão de tanta sobra, vez que cada time entra com o
mesmo número de jogadores, no mesmo espaço e quando sobram três de
um lado, necessariamente existe a mesma quantidade livre do outro,
salvo caso de expulsão ou jogador que sai contundido sem
possibilidade de substituição. No mínimo deveria dizer qual das
sobras era mais importante.
Outro hábito é dizer
que houve falha individual ou coletiva quando o time toma um gol. Sem
considerar a superioridade do ataque, todo gol forçosamente ocorre
por falha. Técnico que substitui bem. Só acho que substitui bem
quem escala mal. Não vislumbro outra explicação lógica alguém
deixar melhor, o mais bem preparado para depois, quando o time fica
em desvantagem, visto que o único motivo de mudança de um técnico
brasileiro é o resultado. Nenhum altera para ampliação do
resultado, por mais que o jogo esteja propício a isso.
Mas persistem outras
coisas ilógicas. O gol na casa do adversário valer mais serve como
incentivo e reconhecimento na interferência dos fatores extracampos;
e ainda piora o fato dessa regra não servir para as finais. O mesmo
se aplica para as vitórias por mais de dois gols fora de casa
eliminarem a partida de volta nas duas primeiras fases da Copa do
Brasil. Isso se assemelha às vitórias de três pontos antigamente,
com a ressalva de que valiam para os jogos em casa ou fora.
Quando o time faz um,
dois ou três gols, mesmo o adversário não oferecendo resistência,
o recuo tem sido inevitável. Com isso, as grandes goleadas passaram
a ser uma espécie em extinção. E, ainda, qualquer drible, jogada
de efeito ser considerada desprezo ao adversário.
O circo se fecha com a
não comemoração pelos gols contra equipes onde o atleta jogou
alguns dias, sem nenhuma história marcante; o árbitro nunca
apresenta o segundo cartão amarelo para o goleiro que faz "cera",
além de os brasileiros considerarem falta qualquer contato no
adversário, mesmo quando é este quem se atira sobre o outro, como
se fosse dever do adversário abrir o caminho. Outras manias serão
abordadas futuramente.
Pedro Cardoso da Costa
– Interlagos/SP
Bacharel em Direito
