9 de março de 2008

Da bravata à gravata!

Definitivamente, Lula é um homem de sorte! Excetuando o nascimento e a infância pobres, estudou pouco, trabalhou idem e percebeu que poderia ganhar e subir na vida encarnando o messias dos pobres. Em um país de 186 milhões de habitantes em que apenas 2 milhões (1,07%) efetivamente sabem ler e escrever bem e têm uma cultura humanista universal, ele estava fadado ao sucesso. Não deu outra! Sem a ingenuidade de um Forrest Gump, chegou à presidência da república.

Por tudo isso, é incensado pelas massas, que aplaudem seu oportunismo e esperteza na escalada social como se fossem qualidades a serem valorizadas: sem estudo, sem muito trabalho, defensor dos pobres... e se deu bem na vida! Não importa que a realidade se imponha a sua porta no Planalto, ele vai à televisão e diz que “(...) nunca antes nesse país (...)” a saúde, a educação avançaram tanto e, por último, negando frontalmente os dados do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais), o desmatamento da Amazônia é só uma coceira, ainda não é uma doença grave!!! E... as massas acreditam!

Mas, do Lula me cansei e já faz muito tempo, desde os tempos de faculdade, quando observei que a maior parte dos alunos envolvidos com militância estudantil era filiada aos partidos de esquerda e, o mais grave, não gostava de estudar. Portanto, duplamente errados: estavam fora da realidade mundial (que dava os primeiros passos nos anos 80 rumo à globalização) e eram preguiçosos.

O que me surpreende é que até quando o Lula diz uma bravata (senhor que é das bravatas, como a já famosa “nunca antes nesse país”, o que divide a história do Brasil em AL e DL) ao dizer que não gosta de bravatas, ele é interpretado positivamente, mesmo que a interpretação seja totalmente diferente do que ele quis realmente dizer.

Corria a campanha eleitoral para a presidência no 2º semestre de 2006, e me encontrava na barbearia do meu amigo RN, cliente que sou de muitos anos, não só pela sua maestria com as tesouras e a navalha, mas por ser também um observatório de “causos”, fofocas e piadas políticas, sátiras do cotidiano de pessoas simples, etc. De repente, ao tempo em que escanhoava minha barba, RN me perguntou, com entonação enfática de quem, independente de minha resposta, teria algo empolgante para dizer: “E aí, seu Geraldo, você viu o programa do Lula ontem na televisão?” Referindo-se ao programa eleitoral gratuito transmitido obrigatoriamente pelos meios de comunicação nos períodos eleitorais e emendou, sem esperar minha réplica: “O homem (Lula) disse que não gosta de gravata!!! Cabra macho, quer dizer que ele gosta é do povo, não desses ricos e políticos de gravata.”

De fato, havia visto a programação eleitoral na noite anterior, e lembro-me claramente da bravata de Lula ao dizer que não gostava de bravatas, frase de efeito típica dos palanques populistas tão comuns no Brasil; no entanto, as dificuldades de vocabulário do meu amigo impediram a decodificação auditiva correta da frase de Lula, o que o levou a confundir bravata com gravata, e aquilo que para mim não passava de verborragia de candidato em campanha política passou para o RN como uma demonstração de coragem de um homem do povo, que chegou a mais alta magistratura do país e não esqueceu suas raízes, por isso ele disse que não gostava de gravata.

Lula, portanto, é um homem de sorte, pois até quando solta uma patranha tem a sorte de ser interpretado como uma verdade altruísta. Assim, é difícil fazer oposição!

Artigo de autoria de Geraldo Filho (Sociólogo, Bchl e MSc: professor do CMRV/UFPI, Coordenador de Pesquisa e Pós-Graduação)