![]() |
| Geraldo Filho |
Artigo de autoria
de Geraldo Filho – Sociólogo, Bacharel e Mestre: professor do
Campus da UFPI de Parnaíba
Fiquei profundamente
emocionado quando soube, na segunda-feira de carnaval, da renúncia
do Papa Bento XVI ao comando da Igreja Católica (Trono de São
Pedro).
Desde sua eleição, em
2005, repito que a Igreja e o mundo estavam na presença de um dos
maiores intelectuais e teólogos dos últimos séculos, a sua atitude
ao abdicar do pontificadoprovou, de modo absolutamente surpreendente,
que não estava errado!
Lembro-me da reação
de membros da Igreja, clérigos e leigos, quando Joseph Ratzinger
tornou-se papa. Alguns, influenciados por uma teologia tola e
rasteira, que mesclava política partidária e sindical com o Novo
Testamento(o que sangrou a Igreja em milhões de fiéis, pois se
esquecia de pastorear suas almas), mostraram-se indignados com o que
consideraram uma escolha conservadora e reacionária. Outros, ainda
hipnotizadospelaimagem portentosa do super carismático João Paulo
II, não se entusiasmaram muito com um papa tímido, que ao ser
apresentado na sacada da Basílica de São Pedro à multidão mal
erguia os braços para acenar e saudá-la, parecendo não estar à
vontade no novo papel.
Por outro lado, eu,
como espectador do tempo, que não sou religioso (mas sou devoto de
Nossa Senhora de Fátima e converso com o Criador ao meu modo) e sei
da importância da Igreja para a história do nosso mundo, que se
confunde com a sua própria, fiquei feliz coma ascensão ao papado do
cardeal alemão. Depois de séculos, a Igreja voltava a ter um grande
intelectual a conduzí-la, por si, isso já deveria ser motivo de
regozijo para todos, especialmente para aqueles que se ocupam de
estudar os mistérios do complexo espírito humano.
Isso se comprova não
só pela largueza de sua produção bibliográfica, que culminou faz
pouco com os livros sobre a vida de Jesus (o que demonstra que mesmo
o peso da responsabilidade de ser o Vigário de Cristo não impediu o
intelectual teólogo de trabalhar), mas, sobretudo com as medidas
adotadas à frente da Igreja, que têm o objetivo de flexibilizá-la,
para enfrentar um tempo de rápidas transformações. É
alvissareiro, para o futuro da Igreja, ouvir Dom Odilo Scherer,
cardeal brasileiro e um dos principais colaboradores de Bento XVI,
discorrer, com propriedade, sobre o tema pós-modernidade, assunto
que muitos professores universitários sequer sabem abordar.
Lutou contra os
escândalos internos, como o dos padres pedófilos, determinando que
as dioceses comunicassem e colaborassem os casos às autoridades
policiais; contemporizou com o uso do contraceptivo “camisinha”;
abriu, até onde possível, os arquivos do Vaticano (afinal a Igreja
não é um órgão público governamental), permitindo que viesse à
luz a verdade do processo contra os Cavaleiros Templários, no séc.
XIV; sintonizou definitivamente a Igreja com a era da internet ao
criar recentemente o seu twiter. Tudo isso além das funções
tradicionais de Sumo Pontífice (celebrações, canonizações,
viagens). Tudo isso em apenas 8 anos, para um homem que foi escolhido
papa aos 77, na trajetória da Igreja que tem 2000.
Bento XVI renunciou não
por que conspirações mirabolantes entre cardeais, banqueiros e a
máfia tenham inviabilizado seu pontificado (como neuróticos, com
mania de perseguição, começam a propagar para explicara
abdicação). Bento XVI escolheu deixar de ser o interlocutor de Deus
no mundo porque é Ratzinger.
Reflexão pungente e
respeitosa me atinge quando penso na titânica luta travada entre
Bento XVI e Joseph Ratzinger. A responsabilidade mística de ser
papa, o Vigário de Deus, e o humilde reconhecimento de ser apenas um
homem idoso de 85 anos, em cujo corpo a passagem do tempo cobra o seu
tributo.
Seguindo sua fé
inabalável, conversando em orações solitárias e meditativas com o
Criador, a intelectualidade do homem Ratzinger ajudou a humildade a
vencer qualquer resquício de vaidade que o poder e a místicade ser
papa confere a um humano. O Criador deve ter lhe falado: “Cumpristes
bem tua missão, Ratzinger, reconheço que é hora do teu descanso”.
Emergiu vitorioso um senhor que se recolherá ao isolamentoesperando
o momento de sua ida, ensinando, do alto de sua sabedoria, como um
homem, por poderoso que tenha sido, deve sair de cena quando sua
vitalidade começa a se esvair.
Obrigado por ter vivido
na sua época meu Cardeal e Papa, saudações Mestre Joseph
Ratzinger, pois “O Senhor é nosso pastor e nada nos faltará”.
